Quem pesquisa MikroTik pela primeira vez quase sempre tem a mesma reação: são dezenas de modelos, com nomes parecidos e siglas que não dizem nada para quem está de fora. A tentação é comprar pelo preço ou pela foto, e é aí que muita gente erra, levando um equipamento pequeno demais para o que precisa, ou caro demais para o que tem.
A boa notícia é que existe uma lógica clara por trás de tudo. Quando você entende essa lógica, a escolha deixa de ser um jogo de adivinhação. Vamos por partes.
A linha não é confusa, é modular
O segredo da MikroTik é este: do menor roteador de casa ao maior equipamento de provedor, todos rodam o mesmo sistema operacional, o RouterOS. É como uma marca de carros que usa a mesma central eletrônica no modelo de entrada e no topo de linha, o que muda é o motor, o tamanho e quantos passageiros cabem dentro.
Na prática, isso significa que os recursos avançados (VLANs, firewall, VPN, QoS, roteamento dinâmico) estão disponíveis até nos modelos mais baratos. O que separa um modelo do outro não é "o que ele sabe fazer", e sim quanto ele aguenta fazer ao mesmo tempo: o tamanho do "motor" (CPU e memória), o número e a velocidade das portas, e se ele tem ou não Wi-Fi embutido.
O RouterOS é o sistema da MikroTik que roda em todos os equipamentos da marca. Aprender a configurar um modelo é, em grande parte, aprender a configurar todos, o conhecimento é portável da linha doméstica até a de datacenter. Isso reduz muito a curva de aprendizado de quem cuida da rede.
Por isso a escolha não é "qual é o melhor MikroTik", e sim "qual é o MikroTik certo para o meu caso". E para responder isso, primeiro precisamos conhecer as famílias.
As famílias e para que cada uma serve
Em vez de decorar modelos, vale entender os grupos. Cada família tem uma vocação clara.
hAP — casa e home office, com Wi-Fi
A família hAP (de home Access Point) é a porta de entrada. São roteadores compactos com Wi-Fi integrado, pensados para residências, home offices e cantos pequenos de uma empresa. Trazem o RouterOS completo num formato simples e econômico, ideal para quem quer dar os primeiros passos ou cobrir um ambiente reduzido.
hEX e RB — roteamento cabeado pequeno a médio
A linha hEX e os modelos RB (RouterBOARD) são roteadores sem Wi-Fi, focados em fazer o roteamento cabeado com firmeza. São o "coração" de muitas redes de pequeno e médio porte: ficam atrás do link, cuidam das VLANs, do firewall e do QoS, enquanto o Wi-Fi fica por conta de access points dedicados. Quando você não precisa do rádio embutido, sobra desempenho para o que importa.
L009 — compacto e poderoso, com 2,5G
O L009 é o tipo de equipamento que mostra a evolução da linha: tamanho pequeno, mas com um processador mais robusto e uma porta de 2,5 Gbps, acompanhando links de internet mais rápidos. É uma ótima ponte entre o roteador de entrada e os equipamentos maiores, entregando muito desempenho num formato discreto. Já tratamos dele em detalhe em um artigo dedicado.
CCR (Cloud Core Router) — alto desempenho para provedor e datacenter
A família CCR, ou Cloud Core Router, é o topo. São equipamentos de rack com muitos núcleos de processamento, feitos para mover muito tráfego com folga: provedores de internet, datacenters e empresas grandes. Se o hAP é o carro de passeio, o CCR é o caminhão, dimensionado para volume e continuidade.
CRS — switches gerenciáveis
A linha CRS (Cloud Router Switch) são switches: muitas portas para distribuir a rede com inteligência. Eles podem rodar tanto o RouterOS quanto o SwitchOS, e brilham quando o objetivo é entregar muitas portas com segmentação por VLAN, e muitas vezes com PoE para alimentar câmeras e access points pelo próprio cabo.
cAP e wAP — access points (o Wi-Fi de verdade)
Quando o assunto é cobertura sem fio profissional, entram os cAP (para teto interno) e os wAP (para ambientes externos, resistentes ao tempo). São access points dedicados que trabalham em conjunto para cobrir uma área inteira com roaming, a passagem suave de um ponto para outro enquanto você se move, algo que um roteador "tudo em um" não entrega bem.
Os modelos de entrada que começaram tudo (e ainda rodam por aí)
Tem uma história curiosa por trás da popularidade da MikroTik: boa parte dos provedores de internet começou com um modelo de entrada da marca. Lá no começo dos anos 2010, o lendário RB750 — um roteador minúsculo, baratíssimo, com cinco portas — colocou o RouterOS completo na mão de quem não tinha dinheiro para equipamento de grande porte. De repente, montar um pequeno provedor (WISP) ou uma rede séria ficou acessível, e uma geração inteira de técnicos aprendeu MikroTik num RB750.
Esse DNA continua vivo. O herdeiro direto é o hEX (RB750Gr3), ainda hoje um dos modelos de entrada mais vendidos do mundo: 5 portas Gigabit, o RouterOS completo, e um preço que cabe em qualquer projeto. É a forma mais barata de ter, na prática, um roteador profissional, e a porta de entrada favorita de quem quer conhecer a plataforma.
Segundo a página oficial da MikroTik, o hEX (RB750Gr3) traz 5 portas Gigabit Ethernet, CPU dual-core de 880 MHz, 256 MB de RAM, porta USB, slot microSD e RouterOS nível 4. Um detalhe honesto: em roteamento puro ele entrega cerca de 380 Mbps, ótimo para a maioria dos cenários de entrada, mas para saturar um link de 1 Gbps fazendo roteamento pesado o ideal é subir de modelo (um L009, por exemplo).
A lição vale para qualquer empresa: começar com um modelo de entrada bem configurado é perfeitamente válido. O cuidado é não pedir a ele mais do que foi feito para entregar, e saber a hora de evoluir, exatamente o tipo de leitura que um bom projeto faz por você.
Os critérios que realmente importam
Esqueça por um momento os nomes dos modelos. Na hora de escolher, são estes pontos que decidem se o equipamento vai servir, ou virar gargalo em seis meses:
- Throughput de roteamento. Quanto tráfego o equipamento consegue processar por segundo. É o "motor", e o erro mais comum é subdimensionar aqui, comprando algo que satura quando a rede cresce.
- Número e velocidade das portas. Quantas portas de rede, e a que velocidade (1 Gbps, 2,5 Gbps, 10 Gbps ou mais). De nada adianta um motor potente se faltam portas, ou se elas são lentas para o seu link.
- PoE in e PoE out. Se o equipamento pode ser alimentado pelo cabo de rede (PoE in) e/ou alimentar outros dispositivos por ele (PoE out), o que simplifica muito a instalação de câmeras e access points.
- Ter ou não Wi-Fi. Modelos com rádio integrado (hAP, cAP, wAP) resolvem o sem fio na hora; modelos sem rádio (hEX, RB, CCR) assumem que o Wi-Fi virá de access points dedicados, o que é o ideal em redes maiores.
- CPU e memória (RAM). Definem quantas conexões simultâneas, regras de firewall e túneis VPN o equipamento aguenta sem engasgar. Mais usuários e mais recursos pedem mais "cabeça".
- RouterOS x SwitchOS. Roteadores rodam RouterOS; alguns switches CRS rodam os dois. Saber em qual modo o equipamento vai operar evita comprar a ferramenta errada para a função.
Os números de throughput que a MikroTik publica variam muito conforme o teste: roteamento simples rende mais do que roteamento com muitas regras de firewall ou criptografia (VPN). Por isso o número "de catálogo" deve ser lido como teto, e o dimensionamento real considera o que a rede vai realmente fazer.
Qual modelo para cada cenário
Com os critérios em mente, fica fácil mapear. Os exemplos abaixo são orientações por porte e uso, não receitas fechadas, o equipamento exato sempre depende do projeto.
Residência ou home office
Poucos dispositivos, foco no Wi-Fi cobrindo um ambiente. Aqui a família hAP resolve bem: roteador com rádio integrado, simples e econômico, já com todos os recursos do RouterOS caso você queira segmentar a rede ou criar uma VPN para acesso remoto.
Pequeno escritório
Já vale separar funções: um roteador hEX/RB ou um L009 (se o link for mais rápido) fazendo o roteamento e o firewall, com um ou dois access points cAP cuidando do Wi-Fi e, se houver câmeras, um switch com PoE para alimentá-las pelo cabo.
Empresa média
Mais usuários, mais dispositivos, mais criticidade. Entra um roteador robusto (um L009 mais parrudo ou um CCR de entrada), switches CRS gerenciáveis distribuindo a rede com VLANs e PoE, e vários access points cAP trabalhando como um só, com roaming, para cobrir toda a área sem queda de sinal.
Provedor ou datacenter
Aqui o volume de tráfego é alto e a continuidade é inegociável. É o território dos CCR, com muitos núcleos e portas de alta velocidade, combinados com switches CRS de muitas portas. O dimensionamento deixa de ser "qual modelo" e passa a ser "qual arquitetura", com redundância e folga de sobra.
| Família | Uso ideal | Wi-Fi | Destaque |
|---|---|---|---|
| hAP | Casa / home office | Sim | Entrada simples e econômica |
| hEX / RB | Roteamento cabeado pequeno a médio | Não | Coração da rede, sem rádio |
| L009 | Escritório / link rápido | Não | Compacto com porta 2,5G |
| CCR | Provedor / datacenter | Não | Alto desempenho, muitos núcleos |
| CRS | Distribuição da rede | Não | Switch com VLAN e PoE |
| cAP / wAP | Cobertura Wi-Fi profissional | Sim | Access points com roaming |
Não existe "o melhor MikroTik". Existe o MikroTik certo para o seu projeto, e essa diferença é o que separa uma rede que cresce junto com a empresa de uma que vira gargalo.
Por que o modelo certo depende do projeto
Reparou que toda recomendação acima termina com "depende do projeto"? Não é fuga: é o ponto central. O mesmo escritório pode pedir um equipamento de entrada ou um robusto dependendo de quantas pessoas trabalham nele, se há câmeras e VoIP, se o link é de 300 Mbps ou de 1 Gbps, e do quanto a empresa pretende crescer no próximo ano.
Comprar pequeno demais gera retrabalho e dor de cabeça em poucos meses; comprar grande demais é dinheiro parado. O acerto está no dimensionamento, e é exatamente aí que entra o valor de um integrador: alguém que olha a sua operação real, projeta a arquitetura inteira (roteador, switches, access points, cabeamento) e escolhe os modelos que conversam entre si e com o seu crescimento.
Se você quer entender mais a fundo por que a SHIRO trabalha com MikroTik, vale ler o panorama da linha MikroTik e o artigo dedicado ao L009. E se a dúvida é "qual comprar para o meu caso", a melhor resposta não vem de um catálogo, e sim de um diagnóstico da sua estrutura, é o que a SHIRO faz dentro da solução de Infraestrutura, com equipamentos do nosso portfólio MikroTik.
Perguntas frequentes
Qual o MikroTik de entrada mais usado?
O hEX (RB750Gr3) é o modelo de entrada mais popular: 5 portas Gigabit, CPU dual-core de 880 MHz, 256 MB de RAM, USB, microSD e o RouterOS completo. É herdeiro direto do lendário RB750, com o qual boa parte dos pequenos provedores começou. Em roteamento puro entrega cerca de 380 Mbps.
Qual MikroTik usar em um provedor de internet?
Depende do porte. Pontos de entrada e bordas pequenas usam hEX/RB ou L009; o núcleo de provedores de maior tráfego usa os CCR (Cloud Core Router); a distribuição usa switches CRS. O dimensionamento é por arquitetura, com redundância, não por um modelo único.
Qual a diferença entre hAP, hEX, L009 e CCR?
O hAP é o roteador de casa/home office com Wi-Fi. O hEX/RB faz roteamento cabeado pequeno a médio, sem Wi-Fi. O L009 é compacto e mais potente, com porta de 2,5 Gbps. O CCR é o topo, de rack, com muitos núcleos para provedor e datacenter. Todos rodam o mesmo RouterOS.
O hEX RB750Gr3 ainda vale a pena?
Sim, como roteador de entrada, para aprender o RouterOS e para roteamento cabeado de pequeno porte. Ele roteia cerca de 380 Mbps, o que atende a maioria dos cenários de entrada. Para saturar um link de 1 Gbps fazendo roteamento pesado, o ideal é subir para um modelo como o L009.
Referências e leitura técnica
- MikroTik — Catálogo oficial de produtos (famílias hAP, hEX, L009, CCR, CRS, cAP/wAP). mikrotik.com/products
- MikroTik — hEX (RB750Gr3), página oficial do produto e especificações. mikrotik.com/product/RB750Gr3
- MikroTik — Documentação oficial (RouterOS e SwitchOS). help.mikrotik.com/docs
- IEEE 802.1Q — Segmentação por VLAN, base da gestão de rede nos switches. standards.ieee.org/ieee/802.1Q
- IEEE 802.11 — Wireless LAN (Wi-Fi), padrão usado pela linha cAP/wAP. standards.ieee.org/ieee/802.11